É para falar destes e de muitos outros que, desde 1992, o dia 10 de Outubro é consagrado à saúde mental. Doenças que atingem, no Mundo, vários milhões de doentes que partilham mais do que um problema de saúde e são obrigados a enfrentar a discriminação social.
Em Portugal, os números apontam para cerca de cem mil esquizofrénicos. Paulo, de 42 anos, é um deles. Mas pode ser considerado uma excepção. É que, ao contrário de muitos como ele, nunca sofreu na pele o estigma da discriminação. “Como mãe, tenho feito tudo para evitar que o meu filho sofra, só porque é doente”, afirma Celeste Santos.
DOENÇA PARA TODA A VIDA
Há quase três décadas que esta mãe luta contra uma doença que não mudou apenas a vida do filho. E é isso que a leva a falar. Desde sempre recusou confinar os problemas às paredes de casa, como tantos fazem. Considera o papel da família fundamental para a integração social dos doentes mentais e tem sido esse o seu cavalo de batalha, desde o dia em que, com 14 anos, Paulo deixou de ser o jovem carinhoso, simpático, campeão de natação e aluno exemplar, para se tornar uma pessoa diferente.
“Inicialmente pensámos que fosse uma crise aguda da adolescência. Ele começou a ouvir vozes, a ter alucinações, a desinteressar-se por tudo, mas os médicos diziam todos o mesmo, que era apenas um problema que resultava da adolescência”, recorda Celeste Santos.
O diagnóstico de esquizofrenia chegou algum tempo depois, mas, na altura, há cerca de 30 anos, as opções terapêuticas não eram muitas. Pouco mais havia do que os remédios para abafar as vozes que lhe ecoavam na cabeça. Não se falava de reabilitação e muito menos de integração. “Hoje, o tratamento, embora assente em medicamentos (antipsicóticos), envolve ainda, na maioria dos casos, uma intervenção que passa pela terapia ocupacional, emprego protegido, intervenção familiar, entre outros. O projecto terapêutico é individualizado e deve englobar a família, uma vez que esta é um suporte fundamental no tratamento desdes doentes”, explica Pedro Afonso, médico psiquiatra do Hospital Júlio de Matos.
DOENTES, MAS NÃO INCAPAZES
Introduzido pela primeira vez em 1911, o termo esquizofrenia engloba um conjunto de psicoses que “incluem delírios, alucinações, desorganização cognitiva. A doença manifesta-se pelo pensamento pouco lógico, respostas emocionais incoerentes e por uma forma de retirada para um mundo em que predominam as fantasias internas e a perda de contacto com a realidade”, afirma Maria Luísa Figueira, directora do Serviço de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Lisboa.
Foi isso que aconteceu com Paulo e é o que acontece com um em cada cem portugueses, no final da adolescência e início da idade adulta. E se, até há não muito tempo, o internamento até ao final da vida era a solução encontrada, o tratamento hoje permite controlar os delírios e fazer uma aposta na integração dos doentes. “Não compreendo por que é que se discriminam estas pessoas. Não têm a culpa de estar doentes, mas pagam como se fossem responsáveis”, afirma Celeste Santos.
Paulo é um exemplo do que pode ser a integração. Veste-se sozinho, já tirou dois cursos de computadores, conduz e leva uma vida normal. “De vez em quando lá tem os seus pontos baixos, tal como qualquer outra pessoa, mas eles são depois controlados através da medicação”, afirma. E não tem dúvidas. “Estas pessoas são extremamente sensíveis, muito inteligentes e podem ser úteis para a sociedade. Basta apenas acreditar neles e dar-lhes a oportunidade de provarem isso mesmo.”
UMA MENTE BRILHANTE PREMIADA COM NOBEL
Na escola, enquanto as outras crianças somavam um mais um, John Forbes Nash Jr. procurava números grandes. Quando os outros miúdos da sua idade brincavam, ele entretinha-se a ler livros de matemática e a resolver equações. Depois dos estudos secundários, aceitou uma bolsa na Universidade norte-americana de Princeton, onde ficou rodeado pelos maiores especialistas em matemática.
Aos 21 anos, escrevia uma tese de doutoramento, mas a brilhante carreira que tinha pela frente sofreu um valente golpe quando, aos 30 anos, surge o diagnóstico de esquizofrenia. Na altura, poucos sabiam o que era, mas a doença rapidamente o tornou prisioneiro de uma realidade paralela.
“Comecei a pensar que era um homem de grande importância religiosa e a ouvir vozes a toda a hora. Ouvia qualquer coisa como telefonemas na minha cabeça”, contou. Uma história que acabou por se tornar o enredo de um filme, ‘Mentes Brilhantes’, protagonizado por Russel Crow.
Mas a força de vontade e a ajuda de amigos e família, assim como um tratamento rigoroso, fizeram com que conseguisse vencer a doença e, em 1994, aos 66 anos, recebeu, em conjunto com outro matemático, o Prémio Nobel de Economia. “Recuperar a racionalidade depois de se ter sido irracional, recuperar uma vida normal, é um grande feito”, referiu ao receber o galardão.
ACABAR COM DISCRIMINAÇÃO ATRAVÉS DA INTEGRAÇÃO
Integrar na comunidade é palavra de ordem para a Associação para o Estudo e Integração Psicossocial. Fátima Jorge Monteiro, presidente da direcção, descreveu ao ‘Correio da Manhã’ algumas das actividades que, desde 1987, data da sua fundação, passou a desenvolver. “Procuramos integrar as pessoas no mercado de trabalho dito normal. Para isso, criamos equipas que acompanham os doentes e prestam o apoio necessário para essa integração na comunidade”, afirma.
Mas há mais. Os cursos de computadores, realizados em escolas especializadas em informática, permitem, ao mesmo tempo, o contacto com a comunidade por parte das pessoas com problemas mentais, o que, na opinião de Fátima Jorge Monteiro, “é fundamental para combater a discriminação”, e ainda a criação de responsabilidades nos doentes. “Não se pode ter atitudes desadequadas e depois justificá-las com a doença”, refere.
Para além deste trabalho, a associação dispõe ainda de uma área habitacional, com residências para seis a 10 pessoas. “Não se trata de internamentos, mas antes de um treino para que posam adquirir a sua autonomia e independência. É importante para as pessoas que não têm um suporte social, que estão sozinhas, mas também para aqueles que têm o projecto de levar uma vida independente da família.”
DEPRESSÃO
É uma desordem mental frequente, caracterizada pela tristeza, perda de interesse em desempenhar actividade e diminuição de energia. Estima-se que, em todo o Mundo, 121 milhões de pessoas sofram de depressão. E acredita-se que 5,8% dos homens e 9,5% das mulheres venham a sofrer de um episódio depressivo em cada ano.
ALZHEIMER
Trata-se de uma doença degenerativa, caracterizada por um declínio progressivo da memória, do pensamento, raciocínio, cálculo, linguagem, capacidade para aprender e julgar. Afecta sobretudo os mais velhos, com valores que, de acordo com as estimativas, chegam aos 37 milhões em todo o Mundo.
EPILEPSIA
É a mais comum das desordens cerebrais. Caracterizada por ataques repetidos, que podem variar desde a perda momentânea de atenção, até às convulsões sérias e frequentes, causadas pelo excesso de actividade eléctrica no cérebro, afecta cerca de 50 milhões de pessoas.
DEFICIÊNCIA MENTAL
Resulta de um de-senvolvimento incompleto da mente, caracterizado por diminuição de capacidades em áreas como a linguagem e as aptidões sociais e culturais. Estima-se que a prevalência destes problemas se situe entre 1 e 3%.
Carla Marina Mendes
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