![]() Filipe Maia já tem vários outros poemas prontos e não esconde o desejo de publicar um novo livro |
Correio da Manhã – Quem é o Filipe Maia e Carmo?
Filipe Maia e Carmo – Sou uma pessoa de 35 anos, que tem esquizofrenia, estudante e com gosto pela escrita.
– Quando é que se começou a dedicar à escrita?
– Há muito tempo. Gosto muito de escrever, tenho uma necessidade compulsiva de o fazer. Para mim, é uma distracção e não um trabalho.
– Escreve todos os dias?
– Não, escrevo apenas quando estou inspirado. Quando a inspiração chega, eu agarro na caneta.
– A ideia de publicar um livro ganha contornos quando?
– Há pouco tempo. Foi mesmo quando surgiu a hipótese de ser editado.
– Foi fácil conseguir uma editora para publicar o seu trabalho?
– Não foi difícil. A editora Padrões Culturais decidiu publicar uma obra de um esquizofrénico, o que é algo que, há uns anos, seria impensável.
– Porquê impensável?
– Porque a esquizofrenia era muito mais estigmatizada.
– Acha que hoje já é possível falar de esquizofrenia sem estigma?
– Não, já que o estigma ainda existe, mas não tanto como antigamente.
– Já sentiu esse estigma?
– Sim, há uns anos, mas depois passou-me ao lado. Hoje vivo medicado e estando assim sou capaz de ultrapassar a esquizofrenia.
– O seu livro chama-se ‘Agarrar o Vento’. Porquê?
– Nós tínhamos uns filmes, feitos pela minha mãe e pelo meu pai, que estavam na casa de uma amiga nossa que ardeu, e com ela os filmes. Agarrar o vento seria uma forma de agarrar essa fita que se perdeu, é algo que se vai entre as mãos, como a areia.
– É uma obra dedicada à sua mãe. Ela é uma pessoa importante na sua vida?
– A minha mãe faleceu quando eu tinha três anos, por isso quase não tenho recordações para além das fotografias. Mas pessoas que a conheceram falam muito bem dela e ela marcou-me muito. O livro é também dedicado a toda a minha família.
– Tem sido importante o apoio que lhe têm dado?
– A minha família tem sido um pilar muito importante no apoio à minha doença, tanto em tempo de crise como em tempos melhores.
– Quando é que lhe foi diagnosticada a doença?
– Há 18 anos.
– Quais eram os sintomas?
– Tinha alucinações auditivas e às vezes visuais. Agora já não tanto, porque estou medicado, mas oiço vozes que me insultam, vozes que não são reais. Às vezes, torna um pouco difícil distinguir se são verdadeiras ou não.
– Na altura em que foi feito o diagnóstico, a sua vida mudou muito?
– Mudou um pouco, mas não completamente. É que antes de começar a ser tratado eu já estava doente, já tinha os sintomas.
– O que é que ficou diferente?
– Com o diagnóstico tive de passar a fazer uma vida mais calma, tive de ir aos psiquiatras, aos psicólogos, tratar-me para ser uma pessoa melhor. Era estudante e deixei o curso de Estudos Franceses e Ingleses, que retomei agora.
– Por que é que decidiu voltar agora a estudar?
– Porque quero aprender mais.
– “Viver no Mundo, ‘dentro de outro mundo’…” É assim que o Dr. Pedro Afonso, autor do prefácio do seu livro, caracteriza a esquizofrenia. Concorda?
– Sim, porque nós, doentes, vivemos num mundo de fantasia que, ao mesmo tempo se mistura com a realidade. Isso às vezes é muito aborrecido porque não os conseguimos separar.
– Acha que as pessoas ditas normais conseguem compreender esse outro mundo?
– Nem todas. Às vezes é muito difícil lidar com uma pessoa que tem uma doença como a minha, que é uma doença mental. É que ela exige preparação. A minha família foi-se aproximando e apoiando ao longo do tempo, mas as pessoas de fora nem todas entendem.
– O que é que falta para que os doentes não sejam discriminados?
– Sensibilização à doença. Hoje em dia já se fala muito mais em doenças mentais como a esquizofrenia, a bipolar, as depressões, e acho que isso ajuda. São importantes campanhas para sensibilizar, para que se diga não à discriminação.
– Acha que essa discriminação pode ser fruto de medo?
– Sim, penso que é medo do desconhecido.
– Por que é que decidiu escrever um livro de poesia?
– Porque a poesia encanta-me.
– Está a pensar publicar outros livros?
– Se conseguir.
– Tem algum poema preferido?
– Tenho dois, um deles dedicado à minha mãe e o outro à senhora que me criou.
– Quanto tempo é que demorou a escrever o ‘Agarrar o Vento’?
– Demorei alguns anos. Fui escrevendo os poemas, organizados numa sequência que já tinha determinado.
– Qual é a verdadeira importância da escrita para si?
– É uma forma de catarse e tem ainda a função de me libertar dos meus fantasmas.
– Ela pode ser uma forma de terapia?
– Sim, e todas as formas de arte podem ser uma espécie de terapia, de ajuda, desde a literatura, a pintura, o teatro…
– Que conselhos daria aos doentes que não acreditam nas suas capacidades por causa da doença?
– A esquizofrenia é uma doença como a diabetes a qual, mesmo sem cura, é possível combater com a ajuda de medicamentos. É possível levar uma vida normal, entre aspas. Sorriam e tentem enfrentar a vida, que vão conseguir.
DOENTES SÃO RECUPERÁVEIS E CAPAZES
Sensibilizar os órgãos de comunicação e a comunidade em geral para as doenças mentais é a fórmula encontrada por José Manuel Jara, psiquiatra e presidente da direcção da Associação de Educação e Apoio na Esquizofrenia, para lutar contra a discriminação a que muitos doentes são ainda votados.
“Estas são doenças, como as outras, em que os doentes são pessoas que podem recuperar, apesar de algumas dificuldades adaptativas”, afirma. Para este especialista, um dos maiores problemas que os doentes enfrentam “é a falta de assistência atempada, que faz com que deteriore”.
A esta junta-se a não aceitação social, manifestada através da rejeição. “E ela existe porque há incompreensão, há falta de cultura psiquiátrica, de cultura humanista”, diz. Não constitui, por isso, grande surpresa para este psiquiatra o facto de um doente esquizofrénico ter escrito um livro.
“Uma pessoa pode ter sofrido ou sofrer de uma doença e ser um cidadão válido. Nós temos uma mente complexa e, por vezes, avariamos. Mas não quer dizer que deixemos de ser válidos.”
OBRA, PATOLOGIA, AUXÍLIO E EXEMPLO
‘AGARRAR O VENTO’
“O fogo vai consumindo o filme, carbonizando e inflamando a minha memória a arder em saudade: sol poente, chama devoradora” (pág. 11).
“Como a vida é triste… As rugas mostram já o peso da amargura! E nos olhos a expressão ainda terna de alguém que se conforma” (pág. 29).
“Apenas, como companheira da incerteza, tenho a tristeza. Mas que autismo sem cinismo é o meu, em que uma parte de mim morreu?” (pág. 13).
A DOENÇA
Estima-se que cerca de cem mil portugueses sofram de esquizofrenia. No Mundo, esta perturbação afecta um por cento da população adulta, surgindo normalmente entre os 16 e os 25 anos, em ambos os sexos. Com sintomas que podem ir desde os delírios, alucinações, isolamento social ou apatia, a patologia leva o doente a confundiar a realidade com a fantasia. Situação que a medicação ajuda a controlar.
AJUDA
A Associação de Educação e Apoio na Esquizofrenia nasceu em 2002 e funciona no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa. Tem uma página na Internet, em www.aeape.pt, onde, além de testemunhos escritos por esquizofrénicos, é possível encontrar mais informação, orientação e recomendações sobre a doença – como por exemplo, o alerta de que sem o tratamento de manutenção a esquizofrenia agrava-se.
PRÉMIO NOBEL
A provar que é possível levar uma vida para além da doença está John Forbes Nash. Matemático norte-americano, aos 21 anos começa uma brilhante carreira, interrompida pelo diagnóstico de esquizofrenia. Mas, força da vontade, a ajuda de amigos e família, assim como um tratamento rigoroso, fizeram com que conseguisse vencer a doença e, em 1994, receber o Prémio Nobel de Economia. Uma história que o cinema retrata no filme ‘Uma Mente Brilhante’.
Carla Marina Mendes
http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=148301&idCanal=9

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