![]() estudo. Cientistas da Holanda analisaram gene que explica desordem |
Um pequeno desequilíbrio num gene pode ser a causa de doenças mentais como a esquizofrenia. A conclusão é de um estudo publicado na última edição da revista científica Neuron. De acordo com o director da equipa responsável pela descoberta, Gerard Martens, do Instituto de Investigação em Neurociências da Universidade de Nijmegen, na Holanda, uma "trágica e misteriosa" combinação entre genética, um trauma pré-natal, uma infecção viral e experiências numa idade inicial explica a predisposição para a doença.
As causas de desordens mentais como a esquizofrenia - que afecta entre 50 a 100 mil portugueses e cujos sintomas são alucinações, ilusões, paranóias e comportamentos anti-sociais - são objecto de estudo dos investigadores há já muito tempo. Gerard Martens e a sua equipa demonstram agora em experiências com ratinhos que essa combinação de sintomas pode ter na origem um subtil desequilíbrio do gene Aph-1b.
Segundo o estudo, as proteínas codificadas por este gene têm um papel fundamental no desenvolvimento neurológico.
Para Astrid Vicente, investigadora na área da genética no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, "esta investigação utiliza modelos animais e estes são naturalmente redutores, uma vez que não se pode ter a certeza de que os ratinhos estejam a ter alucinações". Na sua opinião, a descoberta da relação entre "alterações subtis na expressão de um único gene dos ratinhos" e a manifestação de doenças mentais como a esquizofrenia é uma descoberta importante, "mas, para já, não significa nada".
Perceber um paralelismo entre o que acontece com os ratinhos e o que se passa com as pessoas deve ser, segundo Astrid Vicente, o objectivo seguinte dos investigadores. Mas "encontrar uma droga que actue sobre a via fisiológica e melhore os sintomas dos doentes é uma realidade de que estamos muito longe", acrescenta. E lembra "Estes estudos criam muitas vezes uma ansiedade nas famílias dos doentes. É preciso explicar que ninguém vai dizer que encontrou o gene da esquizofrenia."
A equipa de Gerard Martens estudou as diferenças genéticas entre um grupo de ratinhos criado para ser resistente a uma molécula denominada apomorfina e outro que lhe era resistente. Um conjunto de experiências revelou que os ratinhos vulneráveis à apomorfina mostraram diferenças tanto comportamentais como bioquímicas quando comparados com ratinhos normais.
Os investigadores perceberam ainda que as diferenças verificadas se desenvolviam de acordo com o stress a que os animais estavam submetidos durante as primeiras experiências de vida. Para estudar este comportamento e analisar a actividade de milhares de genes nos cérebros dos animais, Gerard Martens utilizou chips de genes.
Uma pequena diferença genética entre os tipos de animais foi a conclusão deste estudo. Depois da observação do comportamento dos animais, os investigadores concluiram que os níveis de actividade do Aph-1b tendem a ser mais baixos nos ratinhos susceptíveis do que nos resistentes.
De acordo com este grupo de especialistas, este gene produz uma proteína que é uma componente da enzima "g-secretase" - responsável pela redução da actividade cerebral. Quando a equipa de Gerard Martens testou diferentes comportamentos em ratinhos com distintos níveis de proteína do gene Aph-1b concluiu que os seus comportamentos correspondiam a esses níveis.
http://dn.sapo.pt//2005/02/22/sociedade/desequilibrio_gene_pode_causa_esquiz.html
