Mais de 30% da população mundial sofre de problemas mentais

Posted on Terça-feira 4 Setembro 2007

Mais de 30% da população mundial sofre de algum tipo de doença mental e pelo menos dois terços destes doentes não são tratados ou são-no inadequadamente, revelam especialistas na revista médica Lancet.

De acordo com seis artigos na Lancet, nos quais 39 especialistas traçam um diagnóstico ao estado das políticas de saúde mental a nível mundial, a falta de tratamento dos problemas mentais aproxima-se dos 90% em muitos países desenvolvidos.

Mais de 85% da população mundial vive em 153 países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, com muitos desses países a destacar poucos ou mesmo nenhuns recursos financeiros para a saúde mental, além de apresentarem infra-estruturas inadequadas.

Em resultado deste desinvestimento, «uma em três pessoas com esquizofrenia e um em dois doentes com outros problemas mentais não recebe nenhum tratamento», salientam os especialistas.

Segundo as contas dos especialistas que colaboraram neste dossier, fornecer os cuidados necessários a estes doentes custaria dois dólares norte-americanos por pessoa nos países subdesenvolvidos e três a quatro dólares por pessoa nos países em vias de desenvolvimento, o que é considerado pouco quando Segundo as contas dos especialistas que colaboraram neste dossier, fornecer os cuidados necessários a estes doentes custaria dois dólares norte-americanos por pessoa nos países subdesenvolvidos e três a quatro dólares por pessoa nos países em vias de desenvolvimento, o que é considerado pouco quando comparado com os custos de outras doenças a nível mundial.

A Lancet realça que, particularmente nos países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, a despesa do Governo com a saúde mental é muito mais baixa do que o necessário.

Cerca de um terço dos países mundiais não têm nos respectivos orçamentos uma verba específica para a saúde mental e um quinto dos que têm gastam nela menos de 1% do total dos gastos com a saúde.

«Quase 70% dos países africanos e 50% dos países do Sudeste asiático referem que gastam menos de 1% do seu orçamento para a saúde na área mental, enquanto mais de 60% dos países europeus gastam mais de 5% dos seus orçamentos para a saúde na saúde mental», é realçado num dos artigos, a partir de estatísticas oficiais, o que a revista considera «revelador das lacunas enormes na provisão do serviço de saúde mental» entre os países ricos e os menos ricos.

Os especialistas salientam ainda que cerca de um terço dos 191 países da Organização Mundial de Saúde (OMS) não têm leis sobre saúde mental, uma deficiência que bloqueia qualquer plano nacional sobre o tema.

«Apesar da grande atenção dos países ocidentais para a mente e consciência humana na filosofia e nas artes, os distúrbios da saúde mental permanecem não apenas negligenciados como também muito estigmatizados pelas nossas sociedades», alerta o editor da Lancet, Richard Horton, nas palavras introdutórias ao trabalho.

Horton apela às instituições mundiais como a OMS, o Banco Mundial, países doadores e outros para partilharem o dever de fazer da saúde mental um tema central das suas estratégias e fluxos financeiros.

Os especialistas convidados pela revista defendem a necessidade de aproximações inovadoras para promover a realidade das doenças mentais e usar os recursos de forma eficiente, «para assegurar que a saúde mental básica atinge todos os indivíduos».

A escassez dos recursos para a saúde mental, desigualdade no acesso a eles e a ineficiência no seu uso têm consequências sérias, a mais directa das quais é a falta de cuidados para quem precisa, consideram.

Alertam ainda que a falta de recursos técnicos e de profissionais especializados são factores que limitam os cuidados de saúde mental disponíveis na maioria dos países, onde as desigualdades são também um dos principais obstáculos, e realçam que o tratamento de muitas doenças mentais, como a depressão, é também eficaz para prevenir muitas outras doenças e problemas sociais, como a dependência do álcool e de outras substâncias.

«Quanto maior a pobreza e a baixa instrução predispõe as populações para os problemas mentais, menos acessíveis ainda parecem ser os serviços a estes mesmos grupos», é afirmado num dos artigos, salientando que há ainda um «estigma em torno dos problemas mentais» e que «as populações com doença mental são também mais vulneráveis ao abuso dos seus direitos humanos, particularmente nos países onde o tratamento é involuntário».

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=293273


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