Forte crença constante de estar a ser vigiado levou Jorge de Assis a isolar-se do mundo. Hoje pretende fazer graduação em Matemática.
Durante 13 anos, Jorge Cândido de Assis, portador de esquizofrenia, viveu sem tomar qualquer medicação. Sentiu "a vida a paralisar por causa da doença" e durante seis meses viveu com "a sensação de medo permanente e inexplicável". "Acreditava mesmo que algo de grave ia suceder", disse ao DN.
Aos 45 anos, este brasileiro está medicado, é acompanhado por um terapeuta e diz levar "uma vida como a de qualquer outra pessoa". O testemunho está no livro "Entre a razão e a ilusão", assinado também pelo psiquiatra Rodrigo Bressan e pela terapeuta ocupacional Cecília Cruz Villares, que hoje será apresentado no Porto (ver caixa).
A primeira crise psicótica ocorreu em 1987. "O delírio mais marcante era o de acreditar que era uma reencarnação do filósofo italiano Giordano Bruno", refere. Diagnosticado como portador de esquizofrenia paranóica, não falava à família da crença por "acreditar que era constantemente perseguido ou filmado". Até no quarto. "Não adiantava dizerem-me que isso era impossível", explica.
Em 2000 teve a terceira crise, a pior. Aí "achava que as coisas que se falavam na televisão tinham que ver comigo" e "não aceitava o argumento de ser muito difícil uma televisão como a Rede Globo preocupar-se com uma única pessoa", descreveu ao DN. "Achava que era o centro da realidade."
Cada vez mais isolado da família, num drama vivido 24 horas por dia, começou a fazer tratamento medicamentoso e a ter apoio terapêutico em Dezembro de 2000. Diz que "foi muito importante a confiança no terapeuta". No início de 2002 começou a fazer terapia ocupacional que "permitiu recuperar e construir novos significados no quotidiano", adianta.
Jorge lembra que o tratamento é para continuar, "sempre acompanhado de conversa com o terapeuta". Em 2001 entrou em Filosofia e tem como "esperança realista fazer a graduação em Matemática". "Quero ser feliz com a vida que tenho", refere, acrescentando ter noção "dos próprios limites".
Cecília Villares explica que o livro é o resultado de um trabalho de equipa que tenta dar a conhecer a esquizofrenia de uma forma "que não apenas técnica". "Com testemunhos das pessoas" afectadas pela doença procurou produzir um livro, juntamente com Rodrigo e Jorge, que pudesse "servir para leigos, doentes, famílias e técnicos", acrescenta.
Filipe Moura, de 30 anos, também portador de esquizofrenia, encontrou na escrita "a forma de libertar a carga negativa" da vida. A semana passada publicou um livro que "reflecte muitas horas de solidão". Um isolamento provocado por uma doença que, diz, o tem feito ser vítima de discriminação da sociedade. "As pessoas associam, mal, a doença um pouco à loucura e à violência", explica.
A nível mundial estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas sofram de esquizofrenia. Um terço da população mundial sofre de uma perturbação mental.
por HELDER ROBALO
http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1386361
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