Caminho das Índias: Especialista inocenta família por doença de Tarso

Posted on Terça-feira 12 Maio 2009

Familia
Melissa, Ramiro e Tarso, personagens de Caminho das Índias
Em 23 de maio, a Abre (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia) promove, em São Paulo, a 19ª edição do encontro Conversando Sobre a Esquizofrenia, evento gratuito e aberto ao público, feito por profissionais da saúde, familiares e portadores de esquizofrenia. O objetivo é, entre outras coisas, jogar luz sobre um assunto que, na novela Caminho das Índias, da Globo, vem sendo tratado sob a ótica da ficção.

Em conversa com O Fuxico, Jorge Cândido de Assis, que há 24 anos convive com a esquizofrenia e hoje é autor do livro livro Entre a Razão e Ilusão: Desmistificando a Loucura (Ed. Segmento Farma, 2008), conta tudo sobre a doença que vem assombrando Tarso, o atormentado jovem vivido por Bruno Gagliasso. Ele, que também é especialista do Proesq (Programa de Esquizofrenia da Universidade Federal de São Paulo), afirma que Tarso tem Transtorno Psicótico Agudo, e não esquizofrenia, como vem sendo divulgado.

"O fato de a novela precisar de uma linguagem digerível ao grande público, talvez seja um dos motivos para que a esquizofrenia não se mostre como realmente é. O que o telespectador vê não condiz com a realidade. Na verdade, o Tarso nem esquizofrenia tem ainda. Mas, para que a trama da novela ganhasse sentido, houve um diagnóstico precipitado de esquizofrenia", diz o especialista.

Mais: a família não tem culpa da doença do jovem e Tônia (Marjorie Estiano), infelizmente, ainda terá muito que sofrer, caso decida continuar namorando o rapaz.

Confira os principais trechos da entrevista, concedida com exclusividade a O Fuxico:

Família redimida

A novela passa a imagem de que uma família desestruturada pode causar esquizofrenia. Essa ideia não é verdadeira. A mãe (Melissa, interpretada por Christiane Torloni) e o pai (Ramiro, vivido por Humberto Martins) não têm culpa alguma. O neurodesenvolvimento da esquizofrenia está associado a diversos fatores, como problemas no parto, variações genéticas e conjunto de fatores que tornam o corpo mais vulnerável. A primeira crise de esquizofrenia ocorre quando a pessoa tem entre 18 e 35 anos, e após sofrer um fator desencadeante do problema, que é como se fosse uma espécie de gatilho. Esse gatilho pode ser o uso de drogas, a morte ou a perda de alguém querido e até pressão familiar. Mas, vamos deixar bem claro: se fosse uma outra pessoa, a esquizofrenia ou doença mental não apareceria. Outro jovem lidaria bem com aquelas cobranças do Ramiro e da Melissa, dando as respostas apropriadas ou se revoltando.

Tonia
Tônia, interpretada por Marjorie Estiano
Tônia

Agora, vamos sair da parte técnica e entrar no campo da opinião. Desde os 22 anos de idade, convivo com a esquizofrenia e com outros doentes. A grande maioria das pessoas só enfrenta problemas tão graves após o relacionamento estar consolidado, o que não foi o caso da Tônia (Marjorie Estiano), que o conheceu pouco antes de sua primeira crise. O amor de Tarso com ela, na vida real, seria muito mais complicado do que a novela vem mostrando. Pense que, em vez de sair todos os dias para se divertir com o namorado, ela irá até ele para resolver problemas. Apesar disso, é um amor possível, porém, bem difícil e improvável. Sendo realista, no momento em que a doença de Tarso está, o que ele precisa é de tratamento e resgatar a própria vida, para só depois pensar em uma relação duradoura.

A doença de Tarso

Pelo que vem sendo mostrado até agora, Tarso tem o que os especialistas chamam de Transtorno Psicótico Agudo. Só depois de seis meses de acompanhamento contínuo é que os médicos podem fazer uma avaliação, para saber se o diagnóstico é ou não esquizofrenia. Na cena em que ele foi hospitalizado, após uma crise na rua, mostra-se claramente um episódio psicótico agudo. Na verdade, nem dá para dizer o que ele tem ainda. No futuro, poderia evoluir para transtorno bipolar. Mas, para que a trama da novela ganhasse sentido, houve o diagnóstico precipitado de esquizofrenia. Outro ponto que deveria ser deixado claro, é que a doença nunca acontece de um dia para o outro.

Vozes e imagens

Tarso frequentemente diz que está vendo alguém que o persegue. Mas, a esquizofrenia não é assim. É muito raro os esquizofrênicos verem imagens nítidas de alguém. Não é comum ver pessoas, mas vultos são frequentes. O doente pode ouvir uma voz ou várias ao mesmo tempo, sempre fazendo comentários sobre o comportamento dele. O conteúdo das vozes tem a ver com a história da pessoa. Embora as vozes não sejam escutadas por mais ninguém, o processo é bem real. Existem pesquisas, com exame de neuroimagem, que mostram que a parte do cérebro que processa a audição funciona durante essa crise.

Glória Perez

Apesar de não retratar a realidade, a linguagem utilizada por Glória Perez tem vários pontos positivos. O personagem Tarso tem algo muito bom, que é mostrar a questão da discriminação que, por sua vez, se baseia em um total desconhecimento da população em relação à doença.

O que a gente (quem tem esquizofrenia) percebe, é que existe uma linguagem na novela necessária para que a doença seja aceita pela população. Acho importante falar também de Sidney Sampaio [ator que intepreta Ademir, filho de Cema (Neusa Borges) e irmão de Maico (Mussunzinho)]. Ele interpreta um doente mental diferente de Tarso, por sua situação econômica e social, classificadas por muitos como inferiores.

A novela mostra que a esquizofrenia está em todas as classes, tanto na alta quanto na baixa. Outro ponto positivo é que o Bruno Gagliasso é um excelente ator que, com sua interpretação sincera, está despertando a atenção para uma doença que, no Brasil, é desconhecida e carregada de preconceitos, mesmo sendo mais comum do que a Aids. Para se ter uma ideia, a incidência de esquizofrenia é de cerca de 0,7% na população brasileira. É um número muito expressivo, para uma doença tão grave.

Realidade Sombria

A realidade do que os esquizofrênicos vivem, de fato, na pele, é diferente do que é mostrado na novela. Na verdade, existem diferenças importantes. São elas: 1) quando entra em crise, o doente não tem momentos de memória e de lucidez, como o Tarso. É uma coisa (crise) contínua, que pode demorar de 15 dias a um mês, dependendo de cada caso; 2) Uma coisa que a novela não retrata é que a pessoa, quando entra em crise, precisa de internação breve, e que isso não é punição. O personagem, provavelmente, vai passar a novela inteira sem mostrar esse lado da realidade, que existe e é necessário, não é maldade da família; 3) Outra coisa que é dita de maneira um pouco fora da realidade é o uso da medicação, que só pode ser administrada por um profissional muito especializado. O acompanhamento é muito próximo, pois as drogas usadas afetam o sistema nervoso central. A doença não é tão romântica como, às vezes, o psiquatria intepretado por Stênio Garcia dá a entender. E o tratamento não é igual ao de um doente com diabetes.

A esquizofrenia é uma síndrome que tem cinco subtipos. Não é uma coisa única. E, dentro desse grupo de doenças, há variação no prognóstico. Mais ou menos 14% têm uma única crise durante toda a vida, ficando livre dela depois. Cerca de 42,5% têm períodos de crises, que alteram profundamente o mecanismo do cérebro. Mesmo o medicamento só fazendo efeito depois de dias, após a crise, o doente volta a enxergar o mundo do jeito que ele é. O restante desse grupo, infelizmente, tem perda cognitiva e de funcionamento do cérebro. Em resumo, a cada crise, ele piora mais. O grande desafio é manter a pessoa estável e prevenir outras crises, pois existe uma perda gradual das funções.

Suicídio

Na esquizofrenia, em média 50% das pessoas tentam o suicídio e 10% têm sucesso. Em geral, isso acontece quando a pessoa cai em si e se dá conta de que tem uma doença mental grave, para a vida inteira. Por isso, é preciso um constante acompanhamento do humor do paciente. Caso o diagnóstico de Tarso realmente seja esquizofrenia, ele fica sujeito também a esse problema.

Serviço:

Para saber mais sobre esquizofrenia e sobre Tarso, acesse:

Abre (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia): http://www.abrebrasil.org.br/ - (11) 5533-1789

Bruno Gagliasso: http://gagliassoblog.com/ (blog criado pelo ator para discutir a doença de Tarso)

 

Por Kathia Natalie

http://ofuxico.terra.com.br/materia/noticia/2009/05/05/especialista-inocenta-familia-por-doenca-de-tarso-111537.htm


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