Reportagem: Realidade na ficção; ficção na realidade

Posted on Quinta-feira 14 Maio 2009

Tarso
Bruno Gagliasso, personagem Tarso de Caminho das Índias
O amadurecer não é uma etapa fácil na vida de ninguém. Pressões dos pais e da sociedade para assumir responsabilidades, escolher a carreira, ter autonomia em tomar decisão ou ser mãe. Toda essa mudança de postura mexe com o comportamento e as emoções dos adolescentes e jovens adultos, que ficam vulneráveis ao stress. E é justamente nessa fase da vida - nos homens aos 18 anos e nas mulheres, por volta dos 26 - que, em 1% da população mundial, outras características comportamentais se unem a essas, geralmente de forma gradativa, até culminar em um surto psicótico.

O desenvolvimento da esquizofrenia foi mostrado recentemente na televisão por meio do personagem Tarso, interpretado por Bruno Gagliasso, em Caminho das Índias. A novela de Glória Perez também mostrou que reconhecer precocemente um quadro de esquizofrenia é difícil para os pais, ao próprio jovem e à sociedade, uma vez que as alterações comportamentais provocadas não são exclusivas da doença. Destacam-se: mudança na personalidade, isolamento social, insônia, indiferença em relação ao sentimento dos outros, períodos intercalados de hiperatividade e inatividade, dificuldade de concentração, desconfiança e hostilidade, bem como ferimentos provocados em si mesmo, sensibilidade a barulhos e luzes e descuido com higiene pessoal.

Ao observar esses sintomas, a primeira desconfiança é de que a pessoa (filho ou amigo) está passando dos limites, quer chamar atenção, é fraca, está deprimida ou envolvida com drogas. ‘’O difícil é reconhecer que ela tem uma doença mental e precisa ir ao médico, até um fator mais sério ocorrer: atitude fisicamente agressiva, afirmar que é uma autoridade ou entidade religiosa, dizer ouvir vozes ou sentir-se perseguido e ameaçado'’, afirma o dr. Antônio Leandro Nascimento, psiquiatra do programa ABP Comunidade, criado pela Associação Brasileira de Psiquiatria.

Sites recomendados

>> www.gagliassoblog.com
>> www.entendendoaesquizofrenia.com.br
>> www.abrebrasil.org.br
>> www.abpcomunidade.com.br

Falta de informação

Se hoje algumas pessoas ao menos sabem que o tema esquizofrenia está sendo tratado na novela de Glória Perez ou que o ator Bruno Gagliasso interpreta um personagem com um tipo de transtorno mental, antes, essa palavra era quase impronunciável ou inaudível. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 90% da população não sabe o que é esquizofrenia. ‘’Não se fala sobre a doença. O portador do sofrimento psíquico acaba afastado da sociedade, seja por falta de estímulo para a reinserção social ou para ser preservado pelos familiares. Estes, muitas vezes, também se negam a aceitar o problema, sentem-se culpados e/ou rebelam-se com a condição do paciente dentro de casa. O motivo para isso tudo: falta de informação generalizada, que leva ao stress e cria um estigma'’, explica o dr. Leonardo Figueiredo Palmeira, psiquiatra da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro e autor do livro recém-lançado Entendendo a Esquizofrenia - Como a família pode ajudar com o tratamento? (Ed. Interciência - 2009).

A ideia de escrever um livro que reunisse informações corretas e claras para leigos, com relatos e dicas a portadores e familiares, nasceu com o programa de psicoeducação desenvolvido por ele entre 2000 e 2007, no Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro (CPRJ), juntamente com as outras autoras do livro: a psicóloga Maria Thereza Geraldes e a psicopedagoga Ana Beatriz Bezerra. Trata-se de um curso educativo sobre a esquizofrenia, seguido de terapia de grupo para as famílias. Segundo o dr. Palmeira, já foi comprovado cientificamente que a informação ajuda muito no tratamento médico e na recuperação do paciente. ‘’Até o número de recaídas e internações é menor em pacientes que possuem uma família esclarecida'’, revela. O estigma é a influência mais negativa para quem sofre de algum transtorno mental.

Tem tratamento

O tratamento medicamentoso com antipsicóticos age diretamente no neurônio, bloqueando os receptores de dopamina e evitando sua produção em excesso. ‘’Diferentemente do que é imaginado pela sociedade, o portador de esquizofrenia não vive o tempo todo em surto'’, afirma o dr. Nascimento. ‘’Fora da crise, a pessoa fica bem, interage e, em muitos casos, pode trabalhar. Portanto, não há motivo para discriminação e afastamento. Nem se trata de uma doença contagiosa'’, completa.

Segundo ele, existem manifestações diferentes de esquizofrenia. O personagem Tarso apresenta um quadro de esquizofrenia paranóide (com predomínio de alucinações e delírios). Outros tipos comuns são: a hebefrênica (com incidência na adolescência e probabilidade de prejuízos cognitivos e sócio-comportamentais) e a chamada simples (diminuição da vontade e da afetividade, empobrecimento do pensamento, isolamento social; sem delírios e alucinações). Cada um dos tipos tem variações de níveis (leves e graves).

Iniciado o tratamento medicamentoso, o efeito terapêutico pode demorar de 4 a 8 semanas, com alguma melhora já nos primeiros dias. O tempo total do tratamento será dito pelo médico, podendo variar de um a cinco anos ou, dependendo do caso, por um período indeterminado.

Uma vez que os sintomas são controlados e a pessoa começa a se sentir bem, é comum abandonar o tratamento. ‘’Todavia, o paciente não está curado. Todo tratamento leva no mínimo um ano e, sem ele, a pessoa fica vulnerável a novas crises'’, alerta o dr. Palmeira. A manutenção é importante justamente para se evitar futuras recaídas, que podem ser mais intensas do que o primeiro surto. ‘’É uma doença crônica, como diabetes, que exige acompanhamento médico - no caso psiquiátrico - a vida toda'’, afirma o dr. Nascimento. Além dos medicamentos e do acompanhamento profissional, um conjunto de ações, como terapias ocupacionais, inclusão social e reabilitação, complementa o tratamento.

Atualmente, sabe-se que a esquizofrenia tem causa genética. ‘’Todo mundo que desenvolve a doença tem, necessariamente, a presença desse gene. Contudo, há casos de quem tem o gene e nunca desenvolve esquizofrenia'’, conta o dr. Palmeira. Também é comprovado que alguns fatores ambientais podem estimular o desenvolvimento da doença nessas pessoas predispostas, como stress, infecção viral durante a gestação da mãe, exposição psicológica na mãe ou na criança e uso de maconha. ‘’É importante deixar claro que esses fatores isolados, sem a presença do gene, não causam a doença.'’

O apoio da família é fundamental

A família não tem culpa pelo desenvolvimento da esquizofrenia no filho e não deve transmitir esse sentimento a ele. O saber lidar com o paciente é difícil pela falta de informação. Porém, o apoio é fundamental para uma melhor recuperação e reinserção do paciente.

Em Caminho das Índias, agora se vê como Tarso, a família e pessoas próximas lidam com o diagnóstico e a doença, o tratamento e o estigma que há na sociedade. A mãe, Melissa (personagem de Christiane Torloni), não aceita e, em um primeiro momento, joga até fora os medicamentos do filho.

‘’Haver equilíbrio é fundamental. Os pais tendem a abandonar ou superproteger, podem cobrar demais ou abdicar da própria vida para se envolver afetivamente ao extremo. Nada disso é indicado'’, alerta o dr. Palmeira. Para ele, deve-se dosar o que pode ser cobrado e como fazê-lo, o dar carinho e proteção, sem exageros. ‘’Conversar com outras pessoas que lidam com isso e procurar informação ajuda muito. Entender a condição, acolher, apoiar e dar amor são atos imprescindíveis.'’

O psiquiatra também enfoca a importância de estimular o indivíduo ao convívio social. Não é bom os pais manterem a pessoa dentro de casa. O lazer, o ir ao cinema ou ao restaurante, estando com os sintomas controlados, é muito benéfico e estimulante para o paciente conquistar autocrítica, bem como incentivar parentes e amigos a estabelecerem uma relação saudável. A comunicação em casa deve ser clara e o ambiente emocionalmente estável para não deixá-lo vulnerável ao stress.

Grupos de apoio - reinserção social e reabilitação profissional

Com o primeiro surto, indica-se a internação. Mas, com os sintomas sob controle, o paciente pode ir para casa passando ao tratamento ambulatorial, feito diariamente no hospital. Novas internações, em geral, são necessárias se o paciente recusa-se a tomar medicamento e entra em novo surto. Essa realidade de tratamento fora de um sistema fechado é recente no Brasil, graças à Reforma Psiquiátrica, amparada pela lei 10.216, de 2001, que trata ‘’da proteção e dos direitos das pessoas portadoras de transtornos psíquicos e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Com ela, ao invés do isolamento, o convívio na família e na comunidade é estimulado e o atendimento feito nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) - residências terapêuticas, ambulatórios, hospitais gerais e centros de convivência - com o objetivo de recuperar a capacidade social dos pacientes'’.

‘’Avançamos muito no tratamento das doenças de saúde mental de 20 anos para cá, com os medicamentos e a reforma psiquiátrica. Mas esses centros precisam deixar de ser um posto de atendimento, como acontece muitas vezes, para se tornarem um local de trabalho cotidiano de socialização e recuperação da autoestima, tendo espaço para atender a todos os usuários'’, diz o dr. Palmeira. Acredita-se que 12% da população necessita de algum atendimento em saúde mental, contínuo ou eventual.

Exemplo de trabalho social - Em Guarulhos, na Grande São Paulo, as pessoas adultas, de baixa renda, portadoras de transtornos mentais e clinicamente estáveis são encaminhadas por profissionais da rede de saúde mental do município (principalmente o CAPs) ao Projeto Tear - Oficinas de Trabalho, Terapia e Arte, onde frequentam, de segunda a sexta, em horário comercial. Com quase seis anos de atividade, é uma iniciativa privada da Pfizer, em parceria com a Prefeitura de Guarulhos e a Associação Cornélia Vlieg, com a finalidade de reabilitar essas pessoas, fortalecer o relacionamento e inseri-las novamente no mercado de trabalho por meio de oficinas oferecidas: gráfica, reciclagem de papel, vitral, mosaico, marcenaria, velas artesanais, tear, serigrafia e personalização.

Os objetos de artesanato produzidos por eles são comercializados e o valor arrecadado é revertido em prol dos usuários. Os participantes são avaliados por assiduidade, iniciativa, criatividade, relação com o grupo e desempenho e recebem uma ‘’bolsa oficina'’. Além da recuperação da autoestima e do melhor convívio social, o trabalho nas oficinas gera renda e mostra, na prática, como é possível a reabilitação.

‘’Os familiares e até mesmo os portadores do sofrimento psíquico ficam admirados com o desenvolvimento do potencial artístico: do que são capazes de fazer'’, conta a psicóloga e coordenadora do projeto, Valéria Bianchini. No ano passado, 16% dos usuários foram inclusos no mercado de trabalho.

Casos reais

John Nash
Matemático norte-americano, ganhador do Prêmio Nobel de Economia. Sua biografia foi retratada no filme Uma Mente Brilhante.

Jack Kerouac
Escritor americano, autor do livro On the Road (Pé na Estrada)

Brian Wilson
Norte-americano fundador da banda Beach Boys, e principal compositor americano na década de 1960.

Syd Barrett
Músico inglês, ex- guitarrista do grupo Pink Floyd, um dos criadores da banda e principal compositor

Antonin Artaud
Poeta e dramaturgo francês, autor de O Teatro e seu Duplo, uma das principais obras sobre o teatro

Arthur Bispo do Rosário
Artista plástico brasileiro, nascido em Sergipe, criador da obra Manto da Apresentação

Vaslav Nijinski
Bailarino russo da companhia de balé de Sergei Diaghilev e coreógrafo

 

Por Roberta Viganó

http://contigo.abril.com.br/reportagem/realidade-ficcao-ficcao-realidade-esquizofrenia-470468.shtml


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